Batalha do Mar de Coral - Análise - Conclusão
Escrito por Sidnei Eduardo Maneta   
Qui, 04 de Abril de 2013 00:00

O QUE OS NÚMEROS PODEM NOS DIZER?

Dos três elementos necessários para se formar uma força aérea embarcada – porta-aviões, aviões e pilotos – o último é o mais importante. Em 1937, quando o Japão iniciou seus preparativos para superar os Estados Unidos na questão naval, a Marinha japonesa também dobrou o número de cadetes aceitos em seus programas de treinamento de pilotos. Estes programas tiveram cento e setenta e sete formandos em 1937. No ano seguinte, quando as novas turmas que se iniciaram após julho de 1937 se formaram, tinham trezentos e sessenta e dois formandos, e estes números aumentaram consideravelmente nos anos seguintes.


A seleção e o treinamento dos pilotos japoneses foram rigorosos e precisos. O treinamento era conduzido em aparelhagem rústica, mas eficiente.

Em Dezembro de 1941 a Marinha japonesa possuía cerca de três mil e quinhentos pilotos. A maioria dos formandos (ou pelo menos a maioria daqueles que sobreviveram aos perigos dos cursos de treinamento avançado de voo) se tornaria pilotos de bombardeiros baseados em terra e de hidroaviões. Um terceiro grupo iria ainda participar de um curso mais rigoroso e perigoso de treinamento avançado, para pilotos embarcados. Este último grupo totalizava menos de quinhentos pilotos por volta de dezembro 1941. Destes, cerca de quatrocentos pilotos poderiam ser considerados de primeira linha, com mais de setecentas horas de voo, e deveriam servir nos seis porta-aviões de frota japoneses. A elite deste grupo era formada por 250 pilotos da primeira Divisão (IJN Akagi e IJN Kaga) e da segunda Divisão (IJN Soryu e IJN Hiryu) de porta-aviões.


Avião de treinamento primário, o biplano Yokosuka K2Y, possuía um motor de 130hp. Foi produzido e utilizado durante toda a década de trinta e o início da guerra do Pacífico.

Os pilotos da quinta Divisão de porta-aviões (IJN Shokaku e IJN Zuikaku) eram menos experientes. Este grupo de pilotos embarcados era mais bem treinado que os pilotos que a Marinha americana teria em mãos no início da Guerra do Pacífico.
Portanto, com este programa de reestruturação iniciado em 1937, a Marinha japonesa esperava superar, pelo menos em qualidade, a Marinha americana por volta de Dezembro de 1941, na questão de navios, aviões, armamentos e pilotos.
Estes novos porta-aviões, aviões e pilotos embarcados conseguiam causar uma forte impressão, mas estes elementos juntos não conseguiam automaticamente e por si mesmos se tornar em uma formidável máquina de guerra. Para combinar estes três elementos em uma decisiva força de ataque requereu uma reorganização da Marinha japonesa, que possuía a visão centrada no encouraçado, mudando desta maneira para uma visão centrada no porta-aviões. Foi isto o que Isoroku Yamamoto fez quando ele se tornou comandante e assumiu a chefia da Frota Combinada em 30 de agosto de 1939. Esta nova visão era revolucionária, e Yamamoto precisou superar uma forte oposição dos setores mais tradicionais da Marinha.
Mas com a ajuda de um jovem e brilhante oficial da força aérea da Marinha – Minoru Genda – ele criou uma nova Marinha com a visão centrada nos porta-aviões e capaz de realizar o primeiro ataque. A parte mais crítica desta inovação foi combinar todos os porta-aviões em uma única força, que foi batizada de Primeira Frota Aérea (mais tarde também conhecida como “Força Móvel” ou “Força de Ataque” – Kido-Butai em japonês). A missão dos encouraçados e cruzadores seria de dar apoio aos porta-aviões, ao invés de operarem independentes como na visão mais tradicional.


O treinamento para se pousar em porta-aviões se iniciava com pousos em espaços restritos que eram marcados no solo com faixas de tecido para simular as dimensões limitadas do convés de voo de um porta-aviões.

Esta nova organização da Marinha japonesa – completada em abril de 1941 com a formação da Primeira Frota Aérea – permitiu uma capacidade de ataque mais ofensiva superior aos novos armamentos secretos desenvolvidos. Isto pode se comparar em muitos aspectos ao exército alemão que inovou na utilização massiva de seus tanques em divisões especiais “Panzer” com o apoio tático de aviões, conseguindo desta maneira por em prática a “Blitzkrieg” que no início da guerra na Europa abalou o mundo. A Kido Butai iria abalar o mundo da mesma maneira no início da guerra do Pacífico.
Em dezembro de 1941, o número de aviões operacionais embarcados pelos japoneses tinha superado os disponíveis pelos americanos:
- EUA (USS Lexington, Saratoga, Ranger, Yorktown, Enterprise e Wasp): total de 420 aviões.
- JAPÃO (IJN Akagi, Kaga, Ryujo, Soryu, Hiryu, Zuiho, Shokaku e Zuikaku): total de 447 aviões.
Estão excluídos desta lista o obsoleto IJN Hosho e o novo USS Hornet que apesar de comissionado ainda não possuía efetivo aéreo.


Bombardeiro Nakajima B5N2 fazendo treinamento de toque a arremetida no porta-aviões IJN Shokaku pouco antes do início da guerra do Pacífico.

OS PRIMEIROS SEIS MESES DE GUERRA E AS PERDAS DE AVIÕES E TRIPULAÇÕES
Os preparativos finais para a guerra e o início dos combates cobraram seu preço com a perda de homens e aviões.
PEARL HARBOR – 11 A6M2, 11 B5N2 e 21 D3A1 perdidos, além de 31 pilotos, 6 observadores e 20 artilheiros mortos em decorrência dos treinamentos e das missões de combate.
ILHA WAKE - 3 B5N2 perdidos, além de 2 pilotos, 2 observadores e 2 artilheiros mortos em decorrência dos combates.
RABAUL – 1 A6M2, 2 B5N2 e 3 D3A1 perdidos, além de 3 pilotos, 1 observador e 2 artilheiros mortos em decorrência dos combates.
DARWIN – 1 A6M2, 1 B5N2 e 2 D3A1 perdidos, além de 2 pilotos e 1 artilheiro mortos em decorrência dos combates.
MAR DE JAVA - 1 D3A1 perdido.
CEILÃO - 3 A6M2 e 11 D3A1, além de 13 pilotos e 10 artilheiros mortos em decorrência dos combates.
JAPÃO – 1 A6M2 perdido, além de 1 piloto.
MAR DE CORAL - 19 A6M2, 4 A5M4, 33 B5N2 e 24 D3A1, além de pelo menos 38 pilotos, 18 navegadores e 30 artilheiros mortos em decorrência dos combates.
O total aproximado de perdas destes primeiros meses foi de noventa e cinco pilotos e outros cento e dezoito tripulantes, além de trinta e seis A6M2, sessenta e dois D3A1, cinquenta B5N2 e quatro A5M4.

Um problema visível enfrentado pelas unidades aéreas de Nagumo era a questão do seu complemento de aviões. É bem verdade que nesta questão do número de aviões da Frota as coisas não iam tão bem. Já na operação contra Pearl Harbor foi necessário tirar aviões de várias unidades para suprir a Kido Butai. Após a operação ser concluída, alguns destes aviões retornaram a suas unidades, mas muitos dos porta-aviões leves não passavam de “tigres de papel”. Estas unidades possuíam poucos aviões, número este menor que sua capacidade, e em vários casos ainda utilizavam aviões obsoletos que não poderiam ser considerados de primeira linha. O Japão iniciou a guerra, mas parece que a indústria aeronáutica japonesa estava em outro ritmo. Dos maiores fabricantes envolvidos na produção de aviões navais – Mitsubishi, Nakajima e Aichi – apenas a linha de produção do caça A6M2 da Mitsubishi estava funcionando a contento. Rumores na Frota diziam que havia problemas com os dois outros fabricantes, porque havia problemas no suprimento de bombardeiros de ataque.


A produção do B5N2 na fábrica da Nakajima foi interrompido em agosto de 1941, após ter produzido apenas duzentos e trinta e sete B5N2 em um ano e meio. Deste total, cento e setenta e um B5N2 foram enviados para a força embarcada e sessenta e seis ficaram de reserva ou em unidades de treinamento.

Na verdade, a fábrica da Nakajima tinha parado a produção do B5N2 tipo 97 em agosto de 1941, em antecipação para preparar sua linha de produção para o novo bombardeiro de ataque B6N1 “Tenzan”. A fábrica da Nakajima foi notificada para reiniciar a produção do B5N2 para atender as necessidades de guerra. A fábrica da Aichi, que produzia o bombardeiro de mergulho D3A1 tipo 99, estava na mesma situação. Esta focando seus esforços nos preparativos destinados a produzir o novo bombardeiro de mergulho D4Y, e por este motivo negligenciava a produção do D3A1. Consequentemente, pelo meio de 1942, a produção de bombardeiros de ataque e bombardeiros de mergulho tinha diminuído consideravelmente, a ponto de ser insuficiente para repor as perdas operacionais e de combate. A indústria japonesa produziria apenas cinquenta e seis bombardeiros de ataque em todo o ano de 1942 – um número pateticamente baixo. Portanto, mesmo que o Japão estivesse conseguindo uma série de vitórias e suas perdas em combate relativamente baixas, a indústria aeronáutica japonesa não conseguia suprir mesmo esta modesta demanda. O resultado era uma dramática falta de aviões para equipar a Frota de Nagumo, cujas limitações eram evidentes.


O porta-aviões IJN Ryujo possuía um grupo misto de B5N2 e B5N1 em seu componente aéreo. Esta foto mostra um B5N1 que foi utilizado desde o início da guerra até a batalha de Midway em junho de 1942.

Quando a guerra se iniciou, os grupos aéreos da Kido Butai estavam com sua capacidade operacional no máximo, apesar de faltar o número ideal de aviões de reposição ou reserva. Mas por volta de junho de 1942 a situação tinha se deteriorado. No raide contra Pearl Harbor, o porta-aviões IJN Akagi carregava sessenta e seis aviões, agora possuía apenas cinquenta e quatro. O IJN Kaga tinha setenta e cinco e agora apenas sessenta e três. O IJN Soryu e o IJN Hiryu começaram a guerra com sessenta e três aviões e agora tinham apenas cinquenta e quatro. No papel, cada esquadrão embarcado (caças, torpedeiros e bombardeiros de mergulho) deveria ter três aviões de reserva embarcados, dando um total de nove aviões de reserva por porta-aviões. Nenhum estava sendo carregado pela Kido Butai para a operação MI – Midway. Um balanço final indicava que os porta-aviões da Kido Butai tinham sofrido uma diminuição de efetivos em torno de 16% em sua capacidade de ataque desde Dezembro de 1941. Qualquer nova baixa nestes grupos aéreos, mesmo que fosse apenas um avião danificado, iria causar um impacto significante na coesão tática das unidades aéreas, uma vez que não existiam aviões reservas para repor estas perdas.
Portanto, Nagumo possuía o total de duzentos e vinte e sete aviões para a operação MI. Com a não participação do IJN Zuikaku e do IJN Shokaku, Nagumo iria lutar uma batalha decisiva com apenas 60% de seu poderio aéreo.


Caça A5M4 do porta-aviões IJN Zuiho que sofreu danos no trem de pouso no momento do pouso. Estes acidentes não fatais também diminuíam o número de aviões disponíveis.

Se a situação das divisões de porta-aviões de Frota estava ruim, o que dizer então das divisões de porta-aviões de segunda linha?
A situação deste segundo grupo era pior. Estas unidades estavam tentando conseguir pilotos e aviões de qualquer jeito para completar seus grupos aéreos, que estavam em sua grande maioria incompletos. O IJN Junyo é um exemplo. Recentemente comissionado, possuía uma capacidade de acomodar cinquenta e quatro aviões. Seu grupo de bombardeiros de mergulho estava razoavelmente intacto e era formado por quinze D3A1. Seu grupo de caças, todavia, estava com problemas. Já estava as vésperas de ser ativado e em completa desorganização. Dos dezoito caças A6M2 que estavam a bordo, doze pertenciam ao 12º grupo aéreo. Faltavam pilotos de caça para todos estes aviões, e o porta-aviões Junyo possuía apenas cinco pilotos. Além deste grupo tinha mais quatro pilotos do 6º kokutai, um piloto do IJN Shokaku e dois pilotos do IJN Ryujo.
Nesta mesma época, o IJN Junyo tinha enviado um de seus próprios pilotos de caça para completar a unidade do IJN Soryu. Era óbvio que o IJN Junyo, não apenas estava carregando apenas trinta e três aviões para a batalha, um número bem abaixo de sua capacidade, mas seu grupo de caças estava formado por homens que não se conheciam e que nunca tinham treinado juntos uma única vez. O mesmo acontecia com os porta-aviões de segunda linha. O IJN Ryujo estava carregando apenas trinta aviões de um complemento de quarenta e oito. O IJN Zuiho acomodava vinte e quatro aviões de um complemento de trinta, e o IJN Hosho apenas oito biplanos obsoletos.


Grupo de tripulantes dos bombardeiros B4Y1 do porta-aviões IJN Hosho que foram utilizados na batalha de Midway em missão de observação.

Resumindo em poucas palavras, após seis meses de guerra, a força de porta-aviões japonesa estava cansada, necessitando de descanso, reposição de pilotos e aviões em seus grupos aéreos. Fazia-se necessário treinamento adicional. Acima de tudo, era preciso dar tempo à anêmica indústria aeronáutica japonesa para atender as demandas de uma guerra em escala plena. A Marinha japonesa, que comandava este “jogo”, estava indo para uma batalha decisiva com seus grupos aéreos em um estado bastante desgastado, cansado e com um número limitado de aviões. As tripulações japonesas acreditavam que esta batalha que se aproximava seria igual às batalhas anteriores – uma luta contra pilotos e aviões inferiores. Se tudo tinha dado certo antes; por que não daria certo mais uma vez? O problema, que algumas destas tripulações já suspeitavam, é que mesmo tendo sucesso diversas vezes, poderia ocorrer um imprevisto.

BIBLIOGRAFIA
- IMPERIAL JAPANESE NAVAL AVIATOR 1937-45, by Osamu Tagaya, ano 2003.
- PEARL HARBOR, by H. P. Willmott, ano 1981
- SUNBURST: THE RISE OF JAPANESE NAVAL AIR POWER, 1909-1941, by Mark R. Peattie, ano 2007
- MIDWAY INQUEST: Why the Japanese Lost the Battle of Midway, by Dallas W. Isom, ano 2007.
- FIRST TEAM: PACIFIC NAVAL AIR COMBAT FROM PEARL HARBOR TO MIDWAY - by John B. Lundstrom, ano 1984.
- AICHI 99 KANBAKU 'VAL' UNITS: 1937-42 - by Osamu Tagaya, ano 2011.
- SHATTERED SWORD, THE UNTOLD STORY OF THE BATTLE OF MIDWAY – by Parshall e Tully, ano 2005.

TRADUÇÃO LIVRE: Sidnei Eduardo Maneta (Japonês)

 
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